Uma horta em seu quintal

Nat Alimentos Guilherme Samarth Horta no seu quintal

Foi na rua Liberdade, número 553 que tudo começou. Há um ano e meio Guilherme Samarth resolveu abrir mão da faculdade de publicidade e do emprego na Dell para se dedicar integralmente à arte da gastronomia. Através do Pizza Sessions ele é capaz de dar muito mais do que sabor aos seus clientes, ele oferece sensações. E para incrementar este cardápio, Gui optou por cultivar sua própria horta, e ser o produtor dos principais temperos degustados pelos apaixonados por pizza.

Mas na verdade, a horta hoje não pertence apenas ao Gui, ela é coletiva, e habita o terraço da Casa Liberdade, em Porto Alegre. Todos que frequentam o ambiente, têm acesso aos temperos e podem tanto ajudar no cultivo e cuidados diários como utilizá-los. Este espaço foi criado em 2012, e desde janeiro deste ano se tornou um ambiente colaborativo que mantém as portas abertas para todos os interessados, sem exceções, onde cada um contribui com o valor que lhe convir para  espaços como este existirem.

A ideia da horta e toda a filosofia presente neste conceito deram tão certo que o Gui resolveu compartilhar os seus conhecimentos com todos que desejam cultivar a sua própria plantação, seja no quintal de casa, em vasinhos na cozinha, ou em uma horta vertical na parede da área de serviços ou da sala. Então, no dia 07 de junho, das 14h às 18h,  ele ministrou o encontrou “Horta em Casa”, com a esperança que mais pessoas criem coragem e coloquem efetivamente a mão na massa, ou melhor, na terra. Role a página e saiba um pouco mais sobre esta experiência.

Nat Alimentos Guilherme Samarth Horta no seu quintal

Engatinhando

Como a gente fazia pizza vegetariana, e daí não temos o artifício da carne na comida, precisávamos trabalhar mais com temperos, com sabor, com sensação. Muitas vezes aconteceu de estarmos em um evento aqui na Casa Liberdade, e faltar tomilho, manjericão, alecrim, por inexperiência nossa, pois faz pouco tempo que trabalhamos com comida, e não conseguíamos recorrer a nada além de pimenta preta. Então, a partir disso, eu comecei a ter vontade de ter uma hortinha para emergência.

Primeiras mudas

Faz uns 10 meses que comecei a plantar. Primeiro plantei manjericão, depois hortelã, alecrim e tomilho.

Correndo atrás

Eu não sabia nada. Primeiro a mãe do meu sócio me deu umas dicas de como cuidar, mas aí depois, com o passar do tempo, eu senti necessidade de entender um pouco mais sobre como fazer um transplante de uma vaso menor para um maior, porque as plantas começaram a crescer; e comecei a pesquisar na internet, total internet. A partir das pesquisas eu comecei a ter vontade de ter mais coisas. Eu conheci a permacultura* e a permacultura me levou para a agrofloresta**. Hoje a agrofloresta é um desafio para mim porque eu não tenho espaço nenhum. Como eu me adaptei a cidade, planto tudo em caixinhas para conseguir cuidar. O alecrim não precisa de tanta água, ele aguenta mais o sol, ao contrário de alguns outros temperos.

Aumentando a frota

A gente tem esse pé de jabuticaba, que está numa caixa, e optamos por deixá-la na caixa pois a gente acredita que dá para fazer muita coisa em um pequeno espaço, então ela vai ficar uma árvore menor, mas vai dar os frutinhos também. Temos uma pitanga também, mas ela ainda é muito novinha, na floreira cinza tem morango e eu tinha, até pouco tempo atrás, tomates. O resto são ervas e temperos. Foi uma experiência, porque eu comecei com temperos que era mais fácil.

Nat Alimentos Guilherme Samarth Horta no seu quintal

Energia recíproca

Pra mim, se eu plantar alguma coisa que eu consiga usufruir daquela energia que eu coloco na plantinha, eu me sinto recompensado mais rápido. E eu percebo que as pessoas que têm plantas, também sentem essa sensação de estar sendo recompensadas pela energia que colocam ali. Então eu comecei com temperos e agora eu estou começando a me arriscar a ter umas frutas.

Uma mudança para melhor

O que acontece é que chegou o momento que eu não precisava me preocupar se eu iria esquecer algum tempero no mercado. Como essa Casa é aberta, e a gente tem um grupo no Facebook com 1.400 pessoas, circulam facilmente de 40 a 50 pessoas por dia aqui eu não podia sempre contar com tirar sempre da horta, porque outras pessoas também usam ela, mas eu me sinto muito mais tranquilo para usar as plantinhas. O que eu sinto é justamente isso, não é algo somente sobre gosto e sabor, por exemplo, eu olho para o manjericão e parece que ele está te retribuindo. Normalmente as pessoas pensam que ter uma horta é só colocar água, mas não, para tomar a frente tem um composteiro, a gente gera mais terra fértil, temos uma preocupação com o lixo, então tu ter uma horta te leva para outro nível de consciência de um local certo para destinar o teu lixo orgânico e também, tu ganha o bônus de, por exemplo, tem manjericão aqui que é fantástico. Quando eu faço pizza margherita com ele (manjericão da horta) faz muito sucesso, “bah, que manjericão é esse?”, dizem, e isso é um plus, ainda mais para quem trabalha com alimentação.

Compartilhando

A ideia do “Horta em Casa” surgiu no início do ano. O que acontece é que eu achava que não tinha tanto conhecimento para compartilhar, porque existia muita carga filosófica e de cuidado com a terra do que propriamente técnica. Mas aí, de janeiro até agora (junho), já que eu tinha uma coisa filosófica muito bonita, eu me obriguei a ir pra parte técnica pra poder dizer para as pessoas: “ah, tem lado para cultivar a horta, existe a composteira e tem um jeito de fazer”. Então, demorou cinco meses para o projeto nascer, mas agora eu vou viajar e vou parar em Itu porque fui convidado para fazer uma intervenção sobre horta urbana. Você tem uma ligação muito forte com o que você come.

Resultados sustentáveis

A coisa mais importante da horta tem a ver com educação, como começar a pensar no lixo que tu gera, e parando para observar tu vê que o lixo não é tão lixo. Se eu pego uma casca de laranja e coloco para compostar e daqui a 45 ou 50 dias aquela casca de laranja não é mais uma casca de laranja e ela volta para a terra, eu não estou mais falando de lixo, estou falando de um ciclo fechado. E é isso, uma horta pequena em casa é começar a ensinar para as pessoas coisas sobre sustentabilidade e ciclos fechados.

Nat Alimentos Guilherme Samarth Horta no seu quintal

Recompensa

Sim, total. Aqui a gente tem um ambiente muito privilegiado, porque tem um pôr do sol muito bonito, tem uma árvore gigante mesmo sendo no terraço da casa que chega junto na horta, e quando eu venho pra cá, nossa, eu me sinto presente com a planta e com a terra. E não é muito tempo, eu fico de 20 a 30 minutos por dia e é um momento muito da pessoa com a pessoa.

Desafios

O cuidado de uma horta tem que ser diário, mas como ela é coletiva hoje eu já tenho como distribuir e mais pessoas me ajudam a cuidar. No começo, quando só eu fazia a horta eu tinha que vir todo o dia, de segunda a segunda. São seres vivos, e cada uma tem a sua particularidade, necessidade.

*Permacultura: É uma tecnologia que foi desenvolvida por um australiano em 1980, aonde você, como ser humano, se relaciona com a natureza, e tem uma visão muito mais holística de onde vai fazer sua casa, aonde ela é funcional pra você, aonde ela tem uma posição solar ok, conseguindo integrar sua casa à natureza. Você começa a produzir seus próprios recursos.

**Agorfloresta: O ser humano cria uma floresta com seis níveis de árvores, mas toda ela sendo pensada em prol da subsistência.

 

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